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Governo britânico adere à psicologia

19/12/2013

Alex Gyani, psicólogo cujo trabalho é ajudar o governo britânico a fazer as pessoas voltarem a trabalhar, ficou intrigado por um estudo feito em 1994 com engenheiros desempregados no Texas. Aqueles que tinham escrito sobre a sensação de perder o emprego tiveram o dobro da probabilidade de encontrar um novo trabalho.

Gyani, 24, experimentou a ideia em um centro de empregos no nordeste de Londres, começando pelo caso mais difícil —um homem de 28 anos, recém-separado e desempregado durante a maior parte de sua vida adulta.

Toda semana, depois de ver um assessor de empregos, o homem escrevia durante 20 minutos —sobre se candidatar a dezenas de vagas e raramente obter resposta, sobre não ter motivo para se levantar de manhã, sobre sua ex-mulher.

Ao longo das semanas, suas palavras tornaram-se menos embaralhadas. Ele começou a recuperar a confiança. Antes de um mês, ele conseguiu um emprego em tempo integral na construção —o seu primeiro. O exercício de redação ajudou o homem a encontrar trabalho? Gyani não pode dizer com certeza. Mas foi o pontapé de um experimento social muito maior em curso no Reino Unido.

Um grupo de psicólogos e economistas está trabalhando para transformar a política britânica. Inspirado na ciência comportamental, o grupo se espalha por todo o país em centros de emprego, escolas e departamentos de governos locais e tenta fazer com que processos burocráticos se adaptem melhor à natureza humana. O objetivo é ver se intervenções pequenas e baratas podem modificar comportamentos, beneficiando indivíduos e a sociedade.

É uma ideia americana popularizada pelo livro “Nudge: O Empurrão Para a Escolha Certa”, de Richard H. Thaler e Cass R. Sunstein. O professor Thaler é economista da Universidade de Chicago e Sunstein trabalhou no governo Obama, onde aplicou as descobertas comportamentais em políticas regulatórias, mas sem ter poder nem  recursos para experimentar.

Então a ideia se enraizou no Reino Unido. O primeiro-ministro David Cameron a adotou, vendo-a não apenas como uma maneira de ajudar as pessoas, mas de o governo fazer mais gastando menos. Ele criou a Equipe de Percepções Comportamentais —ou unidade de estímulo— em 2010. Desde então, dobrou de tamanho e está prestes a se expandir.

A unidade vem induzindo as pessoas a pagar impostos no prazo, calafetar seus sótãos, inscrever-se para doação de órgãos, parar de fumar durante a gravidez e fazer doações para caridade —e economizou dezenas de milhões de libras dos contribuintes, segundo seu diretor, David Halpern. Todo funcionário público no Reino Unido hoje está sendo treinado em ciência comportamental. A unidade tem uma lista de espera de departamentos ávidos para trabalhar com ela, e outros países, da Dinamarca à Austrália, manifestaram interesse pela ideia. A Casa Branca de Obama montou uma equipe semelhante.

“Primeiro a ideia viajou para o Reino Unido e agora as lições estão voltando aos EUA”, disse o professor Thaler. 

No centro do “empurrão” está a crença de que as pessoas nem sempre agem em seu próprio interesse. Nós somos abalados pela ansiedade e dominados por nosso desejo de adaptação. Temos preconceitos e hábitos e podemos ser preguiçosos: diante de uma opção, é maior a probabilidade de escolhermos a opção básica, seja  um toque de celular ou um plano de aposentadoria.

Os proponentes do estímulo estudam o comportamento para tentar descobrir por que as pessoas às vezes fazem más escolhas. Então eles testam pequenas mudanças no modo como as alternativas são apresentadas, para ver se as pessoas podem ser dirigidas para decisões melhores —como colocar maçãs e não chocolates no nível dos olhos nas cantinas das escolas.

Um dos maiores sucessos da unidade envolve o pagamento de impostos. A equipe de Halpern ajudou a testar diferentes cartas de lembrete para centenas de milhares de pessoas que não pagavam impostos. Uma delas tinha uma frase dizendo aos destinatários que a maioria das pessoas de sua comunidade já tinha pago os impostos. Outra dizia que a maioria das pessoas que deviam uma quantia semelhante de impostos já havia pago sua dívida.

Ambas as mensagens aumentaram a coleta de impostos, e a combinação delas foi ainda melhor. No último ano financeiro, as cartas produziram 210 milhões de libras em receitas, segundo o governo.

A ideia foi apresentada a Cameron em 2008 por seu assessor mais jovem, Rohan Silva, que tinha lido “Nudge” assim que o livro foi publicado. Poucas semanas depois de Cameron assumir o cargo, em maio de 2010, nascia a unidade de estímulo. A equipe, que hoje tem 16 membros, já fez mais de 50 experimentos.

Gyani ajudou a criar um teste inicial em que 2 mil pessoas que procuravam emprego foram divididas aleatoriamente em dois grupos: o primeiro continuou preenchendo até nove formulários e esperando a visita de um assessor de empregos. As do segundo grupo preencheram apenas dois formulários e viram o assessor imediatamente. As do segundo grupo que não tivessem encontrado trabalho dentro de oito semanas também eram convidadas a fazer o exercício de redação expressiva e um teste para identificar seus pontos fortes. Assessores do grupo estimulado não apenas lembraram as pessoas para que elas fossem à entrevista de emprego ou atualizassem seu currículo, como também lhes perguntaram como planejavam ir à entrevista e em que hora do dia escreveriam o currículo. “A ideia era criar um compromisso”, disse Gyani.

Dos mil trabalhadores desempregados que foram estimulados, 60% estavam trabalhando novamente em 13 semanas, comparados aos 51% que não foram “empurrados”. “Eu pensei: ‘Puxa, mesmo que isso caia pela metade quando aumentarmos a escala, é maciço’”, disse Gyani. “Poderia significar dezenas de milhares de pessoas saindo do desemprego.”

O projeto hoje está sendo estendido a todo o Reino Unido.

A unidade de estímulo também assumiu o trabalho de fazer as pessoas calafetarem seus sótãos. Os subsídios generosos tiveram pouco sucesso. Halpern lembrou que o executivo-chefe de uma companhia energética lhe contara durante um jantar que as pessoas resistiam à calefação porque isso significava retirar pilhas de objetos inúteis de seus sótãos. Quando a unidade de estímulo ofereceu serviços de faxina, a porcentagem de famílias que concordavam em fazer a calefação aumentou.

“A suposição do departamento de energia era que bastava aumentar o subsídio”, disse Halpern. “Na verdade, não é preciso. Quando você ajuda as pessoas a limpar os sótãos —mesmo que elas tenham de pagar pelo serviço—, há um aumento de 4,8 vezes na aceitação.”

Um dos estímulos favoritos de Halpern é algo que o aeroporto de Schiphol, perto de Amsterdã, adotou nos banheiros públicos: um pequeno adesivo de uma mosca no centro do mictório melhora a pontaria dos usuários e economiza custos de limpeza para o aeroporto.

Durante uma visita recente a Downing Street, Thaler encontrou Cameron no banheiro masculino. Não havia adesivos de mosca. “Qual é o motivo?”, brincou.

Os críticos dos estímulos comportamentais dizem que eles poderiam se tornar um eufemismo para a redução de serviços do governo. Eles acusam Cameron de testar o conceito de forma seletiva.

Os estímulos nunca vão substituir a política pública tradicional, disse Halpern. Parafraseando o ministro Oliver Letwin, disse: “Ninguém está propondo derrubar a lei contra assassinato e substituí-la por um empurrão”.

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